Por Lisandra Paraguassu e Brendan O’Boyle
BRASÍLIA, 29 Set (Reuters) – Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) discursou na Assembleia Geral da ONU em Nova York este mês, usou um dos maiores palcos diplomáticos do mundo para transmitir uma mensagem que define o que provavelmente será a última campanha presidencial de sua carreira de décadas.
“O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, disse, diante de aplausos. A fala, reproduzida à exaustão nas redes sociais em toda a América Latina, retrata como Lula vê as eleições do próximo domingo: uma batalha mais ampla contra forças antidemocráticas e sob o risco de “interferência estrangeira”.
Após uma onda de vitórias eleitorais da direita pela América Latina nos últimos anos, impulsionada pelo retorno de um governo Trump fortalecido nos Estados Unidos, muitos eleitores progressistas veem a candidatura de Lula à reeleição contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como um possível ponto de virada que poderia ajudar a reverter a tendência conservadora da região.
Ao longo da campanha, Lula tentou retratar o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro — a quem já chamou de “um ninguém” em palanques — como um representante de um movimento de direita mais amplo, compartilhando imagens que ligam o senador ao presidente da Argentina, Javier Milei; ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu; e ao presidente dos EUA, Donald Trump.
Os dois primeiros, inclusive, se fizeram presentes no lançamento da campanha de Flávio. Convidado, Milei compareceu pessoalmente, enquanto Netanyahu enviou uma mensagem por vídeo.
“Existe uma percepção entre observadores internacionais de que o Brasil não está simplesmente elegendo um presidente. Dada a influência do país, ele está ajudando a determinar qual campo político emergirá mais forte na próxima fase de uma luta global entre a democracia e o autoritarismo”, disse Paulo Abrão, diretor-executivo do centro de estudos Washington Brazil Office.
O interesse internacional ficou evidente durante a visita de Lula a Nova York, onde ele se encontrou com dois expoentes democratas, o prefeito Zohran Mamdani e o senador Bernie Sanders.
No entanto, Lula entra na reta final da campanha em empate técnico com Flávio, que concorre no lugar de seu pai, preso depois de liderar a fracassada tentativa de golpe em janeiro de 2023, depois de perder as eleição para Lula em 2022.
Apesar de ter alcançado resultados positivos, como o aumento da renda da população e o quase pleno emprego, o terceiro governo Lula ainda luta contra o aumento do custo de vida, que se reflete diretamente na aprovação do governo, e não conseguiu superar a polarização que assola o país há quase uma década.
E é justamente essa polarização que faz com que os olhos internacionais se voltem para o Brasil. Se vencer as eleições, o presidente será o único a conseguir manter o mandato em meio à onda de direita na América Latina.
Uma fonte próxima a Lula, que o acompanhou a Nova York para a Assembleia Geral, conta que não foram poucos os líderes mundiais que disseram à delegação brasileira que “observam com preocupação as eleições e o Brasil que teremos depois”.
“Nesta eleição, Lula assumiu uma importância que transcende seu próprio campo político”, disse Abrão, acrescentando que a eleição “teria consequências para o equilíbrio entre as forças democráticas e a extrema-direita transnacional”.
“ENQUANTO EU ESTIVER VIVO”
O retorno de Lula ao poder em 2023 coroou uma recuperação dramática, mas o presidente que voltou a Brasília depois de 12 anos era muito diferente do que havia deixado o cargo, em 2010, com uma aprovação de 87%. O otimismo que havia levado o PT ao poder em 2002 havia se transformado em uma onda de rancor contra o partido e contra o próprio presidente.
Em 2016, Lula se tornou o principal alvo da operação Lava Jato, que começou investigando escândalos da Petrobras e se espalhou por outros setores. Ao mesmo tempo, o Brasil mergulhava em turbulência política com o impeachment de sua sucessora, a ex-presidente Dilma Rousseff.
Lula passou 580 dias na prisão antes de sua condenação ser anulada devido a falhas nas investigações e nos processos judiciais.
A prisão o impediu de concorrer contra Jair Bolsonaro em 2018, quando o ex-capitão do Exército chegou ao poder prometendo desfazer grande parte do que os progressistas haviam conquistado desde o fim do regime militar na década de 1980.
Ainda assim, Lula permaneceu um símbolo para grande parte da esquerda global. Em seus dias na prisão de Curitiba, o país assistiu a uma romaria de visitas de líderes de esquerda, sindicalistas mundiais e nomes que iam do ex-presidente uruguaio Pepe Mujica ao filósofo Noam Chomsky.
Quando reassumiu o Palácio do Planalto, em janeiro de 2023, Lula estava convencido de que o Brasil estava na linha de frente de uma luta mais ampla contra um movimento global de extrema-direita.
Os ataques de apoiadores de Bolsonaro contra as sedes dos Três Poderes em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, dias após a posse de Lula, apenas reforçaram essa crença para muitos.
“Enquanto eu estiver vivo, a extrema-direita não voltará ao poder neste país”, ele repetiu mais de uma vez, em discursos de campanha e entrevistas.
INTERESSES REGIONAIS
Embora Lula tenha fortalecido os laços com a China, revitalizado a liderança do Brasil no bloco Brics de nações emergentes e ampliado o engajamento com a Europa, as recentes vitórias da direita na América do Sul e uma relação conflituosa com o governo Trump o deixaram como um dos últimos bastiões de esquerda na região e, para o governo norte-americano, um nome a ser batido.
Diplomatas brasileiros apontam que Washington vê o Brasil como o último grande obstáculo para uma onda de governos alinhados a Trump na América Latina, após as recentes vitórias no Chile, Colômbia, Honduras e Peru, e uma expansão sem precedentes do poder dos EUA na Venezuela após a intervenção militar que retirou o presidente Nicolás Maduro.
Em Washington, os progressistas veem Lula como um “farol de esperança”, disse Alex Main, do Centro de Pesquisa Econômica e Política, um centro de estudos de esquerda.
Na Argentina, os opositores do presidente libertário Javier Milei colocam a possível reeleição de Lula como um potencial impulso para as suas próprias eleições do ano que vem.
“Se Lula vencer, isso criará uma contracorrente ao que vem se consolidando na região e mostrará que há resistência a esses ventos de direita”, disse Santiago Cafiero, deputado e ex-ministro das Relações Exteriores.
Diplomatas de governos liberais da Europa e de outras regiões também acompanham de perto os movimentos no Brasil.
TEMORES DE INTERFERÊNCIA
A resistência do Brasil a Trump e suas tarifas parece ter beneficiado Lula entre alguns eleitores, elevando seus índices de aprovação, enquanto progressistas zombavam de Flávio, chamando-o de “Tariflávio”, em referência à recente visita do senador aos EUA para conquistar o apoio do presidente norte-americano.
Até o momento, apesar de ter recebido Flávio e ter se deixado fotografar com o candidato de oposição, Trump não fez declarações públicas de apoio ao filho de Bolsonaro, de quem se dizia aliado.
Mas, nas últimas semanas, aliados de Lula expressaram preocupação de que o governo Trump possa se recusar a reconhecer os resultados das eleições caso ele vença, argumentando que tentativas de interferência já estão em andamento.
Eles apontam para as declarações do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que culpou Lula pelo fracasso das negociações comerciais que levaram ao aumento das tarifas norte-americanas sobre produtos brasileiros, e para a tentativa frustrada de enviar autoridades dos EUA ao Brasil em uma missão para “discutir a integridade eleitoral”, segundo o Departamento de Estado dos EUA.
Antes das eleições de 2022, o então presidente dos EUA, Joe Biden, enviou o diretor de Agência Central de Inteligência (CIA) para dizer ao então presidente Bolsonaro que não interferisse nas eleições, disseram fontes à Reuters na época, e garantiu que os EUA estivessem entre os primeiros países a reconhecer o resultado.
Na semana passada, 31 democratas no Congresso norte-americano, incluindo a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, instaram Rubio a respeitar o resultado das eleições brasileiras.
Em uma carta, eles expressaram “grave preocupação” com uma “campanha sustentada e multifacetada de interferência e desestabilização no Brasil”.
O Departamento de Estado não respondeu a um pedido de comentário, mas já negou acusações anteriores do governo Lula de interferência eleitoral.
(Reportagem de Lisandra Paraguassu e Brendan O’Boyle, em Brasília; Reportagem adicional de Lucila Sigal, em Buenos Aires)
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