Por Olivia Le Poidevin
GENEBRA, 17 Set (Reuters) – Uma missão de apuração da ONU sobre o Irã afirmou nesta quinta-feira que tem motivos razoáveis para acreditar que os Estados Unidos estavam por trás de dois ataques militares contra uma escola e um complexo esportivo no Irã em fevereiro, e que esses ataques constituíram crimes de guerra.
A missão também alegou que as autoridades iranianas cometeram crimes contra a humanidade durante a repressão mortal aos protestos antigovernamentais.
As conclusões de um novo relatório da Missão Internacional Independente de Investigação sobre o Irã, a ser apresentado ao Conselho de Direitos Humanos da ONU em Genebra, examinaram a conduta dos EUA durante a guerra no Irã, que teve início em fevereiro, e a resposta do governo iraniano aos distúrbios em todo o país que começaram no final de dezembro.
As missões permanentes do Irã e dos EUA em Genebra não responderam imediatamente aos pedidos de comentário da Reuters.
Autoridades norte-americanas já haviam afirmado anteriormente que as operações militares são conduzidas de acordo com o direito dos conflitos armados, enquanto o Irã tem rejeitado consistentemente as alegações de violações sistemáticas de direitos.
ATAQUE A ESCOLA DE MINAB
Os especialistas da ONU disseram ter encontrado motivos razoáveis para acreditar que as forças norte-americanas foram responsáveis por um ataque à Escola Primária Shajareh Tayyebeh, na cidade de Minab, onde mais de 150 pessoas foram mortas, incluindo cerca de 120 crianças em idade escolar, segundo autoridades iranianas.
A ação constituiu um ataque indiscriminado que causou mortes de civis e danos à infraestrutura civil, o que equivale a um crime de guerra segundo o direito internacional, concluiu a missão.
De acordo com o relatório, o fato de os EUA não terem atualizado as informações relativas à escola — que ficava ao lado de um complexo naval da Guarda Revolucionária Islâmica — em seus bancos de dados de alvos, nem terem confirmado que o prédio era um objetivo militar, constituiu mais do que mera negligência.
“Pelo contrário, os EUA direcionaram os ataques ao prédio da escola, estando cientes de um risco substancial de atingir um alvo civil e agindo de forma imprudente em relação à possibilidade de que isso ocorresse.”
Em junho, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que “ninguém” atacou propositalmente uma escola para meninas no Irã em fevereiro, citando uma investigação sobre o incidente. A Reuters foi a primeira a noticiar que uma investigação interna inicial das Forças Armadas dos EUA indicava que as forças norte-americanas provavelmente eram responsáveis pelo ataque fatal em Minab, no sul do Irã.
Desde então, o Pentágono ampliou a investigação, mas não publicou nenhuma conclusão preliminar.
Especialistas da ONU afirmaram que a escola era um alvo civil claramente identificável e não encontraram evidências de que estivesse sendo usada para fins militares.
Os especialistas chegaram a uma conclusão semelhante em relação a um ataque a um centro esportivo em Lamerd. O relatório indicou que o ataque danificou prédios residenciais próximos e uma escola, além de ter matado e ferido 22 civis. Concluiu-se que o ataque foi indiscriminado e, portanto, constituiu um crime de guerra.
O Comando Central dos EUA declarou, em comunicado divulgado em março, que as forças norte-americanas não realizaram nenhum ataque à cidade de Lamerd naquele dia.
ABUSOS NO IRÃ
A investigação da missão da ONU constatou que as autoridades iranianas realizaram um ataque generalizado e sistemático contra civis durante os protestos que eclodiram no final de dezembro do ano passado, envolvendo mortes ilegais, tortura, detenções arbitrárias, desaparecimentos forçados e severas restrições à liberdade de expressão.
Grupos de direitos humanos afirmam que havia transeuntes entre as vítimas fatais durante a maior repressão desde que clérigos muçulmanos xiitas assumiram o poder na revolução de 1979. Teerã atribuiu a culpa a “terroristas e manifestantes violentos” apoiados por opositores exilados e inimigos estrangeiros, como EUA e Israel.
A investigação afirmou que não foi possível verificar de forma independente o número de mortos, mas que acredita que o número de mortos e feridos provavelmente seja muito superior aos números oficiais, que indicam 3.038 mortos e 25.000 feridos.
A resposta do governo aos protestos — incluindo violência e assassinatos, o bloqueio da internet e o uso da pena de morte — marcou uma escalada significativa em relação aos padrões anteriores de repressão à dissidência, segundo o relatório.
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