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FMI alerta que tarifas não são resposta para desequilíbrios globais

Imagem de um porto de carga com contêineres coloridos empilhados, guindastes de carga e caminhões, representando logística e transporte internacional.

Por Andrea Shalal

WASHINGTON (Reuters) – Os saldos globais — positivos e negativos — em conta corrente aumentaram acentuadamente em 2024, revertendo o estreitamento ocorrido desde a crise financeira global de 2008-2009, informou o Fundo Monetário Internacional (FMI) nesta terça-feira, alertando que as tarifas comerciais não são a resposta para os desequilíbrios.

Em seu Relatório Anual do Setor Externo, que avalia os desequilíbrios nas 30 maiores economias, o FMI observou que superávits ou déficits externos não eram necessariamente um problema, mas poderiam representar riscos caso se tornassem excessivos.

A instituição disse ainda que desequilíbrios internos prolongados, incerteza contínua na política fiscal e tensões comerciais crescentes podem deteriorar o sentimento de risco global e elevar o estresse financeiro, prejudicando tanto os países devedores quanto os credores.

O relatório criticou a imposição de tarifas de importação mais altas pelo presidente dos EUA, Donald Trump, contra quase todos os parceiros comerciais, o que, segundo seu governo, visa aumentar as receitas e corrigir déficits comerciais de longa data.

“Uma nova escalada da guerra comercial teria efeitos macroeconômicos significativos”, disse o FMI, observando que tarifas mais altas reduziriam a demanda global no curto prazo e aumentariam as pressões inflacionárias por meio do aumento dos preços das importações.

O aumento das tensões geopolíticas também pode desencadear mudanças no Sistema Monetário Internacional (IMS, na sigla em inglês), o que por sua vez pode prejudicar a estabilidade financeira, afirmou o FMI.

O relatório deste ano, baseado em dados de 2024, mostrou que o aumento dos saldos globais em conta corrente se deveu em grande parte à elevação dos saldos excedentes nas três maiores economias do mundo: Estados Unidos, China e zona do euro.

O déficit nos Estados Unidos aumentou em US$228 bilhões, para US$1,13 trilhão ou 1% do Produto Interno Bruto (PIB) global, enquanto o superávit da China aumentou em US$161 bilhões, para US$424 bilhões, e os superávits da zona do euro se expandiram em US$198 bilhões, para US$461 bilhões.

SOLUÇÕES DOMÉSTICAS

Em um blog que acompanha o texto, o economista-chefe do FMI, Pierre-Olivier Gourinchas, disse que superávits ou déficits excessivos resultam de distorções internas, como políticas fiscais excessivamente flexíveis, em países deficitários, e redes de segurança insuficientes que causam poupanças excessivas por precaução, em países superavitários.

Mudanças voltadas para esses fatores internos — e não tarifas — eram necessárias, disse ele. Isso significava que a China deveria se concentrar em impulsionar o consumo, a Europa deveria investir mais em infraestrutura e os EUA precisavam reduzir os grandes déficits públicos e controlar os gastos fiscais, acrescentou.

O relatório foi baseado em dados coletados antes da aprovação de um grande projeto de lei de corte de impostos e gastos, que o Escritório de Orçamento do Congresso disse na segunda-feira que adicionaria US$3,4 trilhões ao déficit dos EUA ao longo de dez anos, causando mais pressão.

“Os déficits públicos nos Estados Unidos continuam excessivamente grandes e a recente desvalorização generalizada do yuan chinês — juntamente com o dólar americano — corre o risco de ampliar os superávits em conta corrente na China”, escreveu ele.

O aumento das tarifas teve pouco impacto nos desequilíbrios globais, disse Gourinchas, uma vez que elas tenderam a reduzir tanto o investimento quanto a poupança, deixando os saldos das contas correntes pouco alterados.

PAPEL DOS EUA

A incerteza quanto às tarifas também pode minar a confiança de consumidores e empresas, aumentar a volatilidade do mercado financeiro e levar a valorizações persistentes do dólar, segundo o relatório do FMI. No entanto, o relatório observou que o dólar havia se desvalorizado 8% desde janeiro, sua maior queda semestral desde 1973.

O órgão reconheceu o domínio contínuo do dólar, mas disse que a crescente fragmentação geoeconômica pode representar riscos no futuro, e a recente demanda mais fraca por títulos do Tesouro dos EUA pode refletir preocupações sobre a trajetória fiscal norte-americana.

O uso crescente do yuan chinês no comércio e nas finanças internacionais, um “enfraquecimento do papel dos Estados Unidos como banqueiro e segurador mundial” e o surgimento de sistemas de pagamento alternativos e ativos digitais privados podem eventualmente levar a mudanças no uso de moedas internacionais.

“Embora os riscos de perturbação grave no IMS permaneçam moderados, aumentos rápidos e consideráveis nos desequilíbrios globais podem gerar repercussões transfronteiriças negativas significativas”, escreveu Gourinchas no blog.

Um grande risco para a economia global é que os países respondam aos crescentes desequilíbrios aumentando ainda mais as barreiras comerciais, levando a uma maior fragmentação geoeconômica. E embora o impacto sobre os desequilíbrios globais permaneça limitado, os danos à economia global serão duradouros.

(Reportagem de Andrea Shalal)

 

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