Por Lisandra Paraguassu e Gram Slattery
BRASÍLIA / WASHINGTON, 30 Jul (Reuters) – O governo brasileiro tem retido, há semanas, a aprovação formal necessária para nomeação do próximo embaixador dos Estados Unidos, em uma nova etapa da disputa com o Departamento de Estado que pode deixar o Brasil sem o embaixador norte-americano até as eleições.
Daniel Perez, um deputado estadual da Flórida e aliado do secretário de Estado, Marco Rubio, foi indicado pelo presidente Donald Trump em 1º de Junho, e sua nomeação foi anunciada antes mesmo de se buscar a aprovação do Brasil, uma prática diplomática conhecida como “agrèment”, disseram quatro pessoas familiarizadas com o assunto.
Previsto na Convenção de Viena, que rege as regras da diplomacia, o processo do agrèment costuma ser mantido em sigilo por protocolo diplomático, até que o anfitrião aceite a indicação do embaixador.
A quebra desse protocolo foi vista como desrespeitosa, ainda que não tenha sido um desrespeito apenas com o Brasil — o governo Trump teria agido da mesma forma com outros países. O pedido foi enviado à Brasília cerca de 10 dias depois do anúncio, e está sendo analisado desde então pelas autoridades brasileiras.
De acordo com as fontes brasileiras ouvidas pela Reuters, essa análise não tem prazo para terminar e depende da decisão do Brasil. Uma das fontes disse que a decisão pode não ser tomada até a eleição de outubro.
“Nós não estamos dizendo que não vamos dar o agrèment, mas não tem prazo. Nem a Convenção de Viena determina prazo. Cabe ao país anfitrião decidir”, disse uma das fontes.
Ainda que sem agrèment, o governo norte-americano deu sequência à indicação de Perez, que já passou por uma sabatina no Comitê de Relações Exteriores do Senado dos EUA, e precisa agora ter seu nome aprovado em plenário, outra quebra de protocolo que irritou o governo brasileiro.
Do outro lado, nos últimos dias algumas autoridades do governo Trump também têm demonstrado crescente irritação com o que interpretam como protelação por parte do Brasil, segundo duas fontes. Uma delas acrescentou, sem dar mais detalhes, que o governo poderá tomar medidas punitivas contra o Brasil já no final da semana, caso a questão não seja resolvida em breve.
As ameaças não chegaram ainda ao governo brasileiro, disseram as fontes brasileiras, mas não vai mudar a postura do governo. “Nós não vamos lidar com isso na base da ameaça”, disse uma dessas fontes, lembrando que os EUA ficaram um ano e meio sem embaixador no Brasil, mas decidiram pela nomeação justamente no período eleitoral.
Ainda que não manifestado diretamente, o governo brasileiro não tem pressa em aceitar no país durante o processo eleitoral um aliado de Rubio em um momento em que o Departamento de Estado é visto como o principal foco de apoio ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na disputa pelo Planalto, nos EUA, e origem de tentativas de interferência no processo eleitoral.
Depois de uma breve lua de mel, com o bom relacionamento entre Lula e Trump, a relação entre os dois países se deteriorou nos últimos meses, e o governo brasileiro identifica em Rubio a origem das pressões contra o país.
Questionado, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que não comentaria o assunto, “pois o processo está protegido pelo princípio de confidencialidade estabelecido na Convenção de Viena”.
O Departamento de Estado não respondeu ao pedido de comentário da Reuters.
RELAÇÕES TENSAS, ELEIÇÃO CONTURBADA
O impasse sobre o embaixador vem se somar a semanas de deterioração na relação entre os dois países e a disputa sobre a relação com os EUA deve surgir como um dos temas centrais na eleição.
A soberania nacional tornou-se um dos principais lemas da campanha de Lula na busca por seu quarto mandato não consecutivo na eleição de outubro. Já Flávio Bolsonaro, tem procurado retratar Trump como um aliado fundamental.
Em junho, o Departamento de Estado designou duas facções do crime organizado brasileiro como organizações terroristas, apesar da oposição do governo brasileiro.
Este mês, Washington impôs uma tarifa de 25% sobre diversos produtos brasileiros, alegando o que descreveu como práticas comerciais desleais, em uma medida classificada pelo Brasil como injusta e arbitrária. Na semana passada, anunciou uma tarifa adicional de 12,5% relacionada a preocupações com trabalho forçado.
Dias depois, dois integrantes do governo brasileiro disseram à Reuters que o Brasil negou pedidos de visto para duas autoridades norte-americanas que planejavam viajar ao país para, segundo as fontes brasileiras, questionar a integridade do sistema eleitoral.
Lula classificou as recentes tarifas de Washington sobre produtos brasileiros como resultado de uma “conspiração” entre os Bolsonaro e Trump. As pesquisas mostram Lula com uma vantagem pequena, mas constante, sobre Flávio Bolsonaro.
Em sua audiência no comitê parlamentar neste mês, Perez disse aos senadores que a eleição brasileira de outubro seria uma das primeiras prioridades caso sua nomeação seja confirmada, afirmando que os Estados Unidos deveriam apoiar as condições para eleições livres e justas, ao mesmo tempo que fortaleceriam a cooperação comercial e de segurança com Brasília.
“Temos, de fato, um superávit comercial com o Brasil, mas, mesmo assim”, disse Perez, “há alguns setores com uma lacuna significativa”, referindo-se aos setores de energia e agricultura.
(Reportagem de Gram Slattery e Lisandra Paraguassu;)



