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BC diz que não alterou horizonte para a política de juros

Por Bernardo Caram

BRASÍLIA, 25 Jun (Reuters) – O diretor do Banco Central Paulo Picchetti disse nesta quinta-feira que a autarquia não está alongando o horizonte relevante para a atuação da política monetária e não tem a intenção de fazê-lo, ressaltando ainda que o BC optou por não fornecer sinais sobre o que fará com os juros à frente diante do cenário incerto.

Segundo Picchetti, a decisão do BC de chamar atenção para o primeiro trimestre de 2028 no comunicado e ata divulgados após a última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) se deu sob avaliação de que o choque de oferta gerado pela guerra no Oriente Médio e pelo fenômeno climático El Niño afeta a inflação no horizonte relevante e é completamente insensível ao que o BC faz na política monetária.

“A gente não está alongando o horizonte relevante e a gente não pretende fazer isso, foi simplesmente uma situação muito especial que nos levou a chamar a atenção para isso”, disse.

Picchetti — que atualmente acumula as diretorias de Assuntos Internacionais e de Política Econômica do BC — afirmou que um choque de juros “não abriria o Estreito de Ormuz” nem afetaria o fenômeno El Niño, mas causaria uma desaceleração desordenada da atividade.

Ele ressaltou que as projeções da autarquia mostram uma dissipação forte dos efeitos desse choque no início de 2028, com possível queda acentuada da inflação nesse momento, o que, para ele, é muito relevante.

Nos documentos divulgados após reunião de política monetária na quarta-feira da semana passada em que a Selic foi cortada em 0,25 ponto percentual, para 14,25%, o BC destacou que a trajetória de juros necessária para levar a inflação à meta no quarto trimestre de 2027 — atual horizonte relevante da política monetária — acabaria por deixar a inflação ficar abaixo da meta de 3% por vários trimestres. Já uma trajetória que levasse a inflação à meta um pouco à frente, no primeiro trimestre de 2028, evitaria “volatilidade excessiva” nos ativos financeiros e agregados macroeconômicos.

Parte do mercado entendeu que o BC estava na prática adiando o prazo para o atingimento da meta, abrindo assim espaço para juros mais baixos.

Segundo Picchetti, o BC procurou deixar sua comunicação mais clara na ata da última reunião de política monetária divulgada na terça-feira, após críticas de que o comunicado inicial teria sido confuso, mas reconheceu que as mensagens ainda assim não foram compreendidas por todos.

“A gente sabia que essa era uma decisão muito difícil, pela conjuntura, incerteza e deterioração do cenário”, disse. “Surpreendentemente a gente achou que a reação viria no sentido de a gente ser claro demais. Na verdade teve reação no sentido de falar que foi confuso.”

Também presente na entrevista, o presidente do BC, Gabriel Galípolo enfatizou que não há nenhum tipo de mudança na condução da política monetária. Para ele, o problema nesse caso foi o “excesso de explicação” nas comunicações oficiais, não a falta de dados.

Perguntado se a continuidade do ciclo de corte da Selic na semana passada poderia ter relação com questões políticas do ano eleitoral, Galípolo respondeu que “não tem cabimento” afirmar isso diante das defasagens da política monetária.

As taxas dos DIs (Depósitos Interfinanceiros) de curto prazo reduziam as perdas no fim da manhã desta quinta-feira e as de longo prazo retornaram à estabilidade após as negativas sobre a extensão do horizonte da política monetária.

INDICAÇÃO FUTURA

Na entrevista, Picchetti disse ainda que a autoridade monetária não quer se comprometer com uma sinalização explícita sobre sua atuação nos juros à frente para não perder liberdade, mas afirmou que o BC segue em “ciclo de calibração”.

“A gente vê evidência da transmissão da política monetária, que foi mantida por período bastante prolongado em nível bastante restritivo, e que agora acomoda alguma redução (de juros), cujo tamanho total será determinado à luz de novas informações”, afirmou.

Galípolo acrescentou que a autarquia recolherá dados nos próximos 40 dias para só então tomar sua decisão na próxima reunião do Copom “à luz dos novos fatos”.

Segundo o diretor, há questionamentos pelo fato de o BC não ter dito o que fará na próxima reunião, mas ele ponderou que a autoridade monetária não vê valor em uma sinalização neste momento.

(Reportagem de Bernardo Caram; edição de Isabel Versiani)

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