Por Jonathan Landay e Humeyra Pamuk
WASHINGTON (Reuters) – O governo do presidente dos EUA, Donald Trump, quer cortar o orçamento do Departamento de Estado quase pela metade, de acordo com documentos de planejamento interno analisados pela Reuters, uma redução que pode levar ao fechamento de 27 missões norte-americanas e a cortes drásticos na ajuda externa.
Os cortes propostos, de quase US$30 bilhões no ano fiscal de 2026, estão descritos no chamado “Passback”, a resposta do escritório de orçamento da Casa Branca — o Escritório de Gestão e Orçamento (OMB, na sigla em inglês) — aos pedidos de financiamento do Departamento de Estado para o próximo ano fiscal, que começa em 1º de outubro.
Embora o departamento possa solicitar revisões, uma autoridade dos EUA disse que a versão final provavelmente será alterada apenas “um pouco” antes de ser submetida à aprovação do Congresso, onde “as chances são altas” de que alguns fundos sejam restaurados.
O documento interno foi relatado primeiramente pelo Washington Post.
Como parte do plano — que ainda não foi finalizado –, o governo está considerando uma recomendação para fechar pelo menos 27 missões norte-americanas, principalmente na África e na Europa, de acordo com um memorando interno separado visto pela Reuters. Dez dessas missões são embaixadas e as demais, consulados.
O Departamento de Estado, a Casa Branca e o OMB não responderam imediatamente a um pedido de comentário.
As deliberações ocorrem enquanto o governo Trump e o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE, na sigla em inglês), do bilionário Elon Musk, buscam uma redução rápida e massiva do governo federal, cortando bilhões de dólares em gastos e demitindo milhares de funcionários.
Durante o primeiro mandato de Trump, ele propôs cortar cerca de um terço dos orçamentos de diplomacia e ajuda humanitária dos EUA. Mas o Congresso, que define o orçamento do governo federal, rejeitou a proposta de Trump.
O resumo do retorno do OMB analisado pela Reuters pede um orçamento para o ano fiscal de 2026 para o Departamento de Estado de US$28,4 bilhões, em comparação com US$ 54,4 bilhões para o ano fiscal atual.
Ele também propõe cortar a assistência externa distribuída pelo Departamento de Estado e pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID, na sigla em inglês), de US$38,3 bilhões para US$16,9 bilhões.
Quaisquer pedidos de revisão, diz o documento, “devem ser explicitamente apresentados” até o meio-dia de terça-feira.
O documento do OMB observou que o governo está fechando a USAID, fundindo algumas de suas funções no Departamento de Estado e encerrando programas que “são duplicados ou inconsistentes com as prioridades do governo”.
O governo e o DOGE começaram a desmantelar a USAID em fevereiro. Mais de 5.000 programas foram fechados e milhares de funcionários receberam notificações de demissão.
O documento do OMB disse que os principais programas internacionais de assistência a desastres e refugiados seriam eliminados e novos programas de Assistência Humanitária Internacional, de US$2,5 bilhões, e programas presidenciais de emergência para refugiados e migração, de US$ 1,5 bilhão, seriam criados.
Este último seria usado para “crises urgentes e novas, tanto no país quanto no exterior”, disse o documento, acrescentando que a nova abordagem coloca “os interesses dos cidadãos americanos em primeiro lugar”.
O documento diz ainda que não haverá fundos para o Enduring Welcome, o programa que financia a evacuação e o reassentamento de afegãos nos EUA, incluindo aqueles que correm risco de retaliação do Talibã por terem trabalhado para o governo norte-americano durante a guerra de 20 anos.
O OMB propôs eliminar toda a programação educacional e cultural do departamento, incluindo o programa Fulbright, criado em 1946, que envia estudantes de pós-graduação dos EUA ao exterior para estudar, conduzir pesquisas ou ensinar inglês.
As dez embaixadas que estão sendo consideradas para fechamento estão localizadas na Eritreia, Granada, Lesoto, República Centro-Africana, Luxemburgo, República do Congo, Gâmbia, Sudão do Sul, Malta e Maldivas, de acordo com o segundo documento analisado pela Reuters.
Entre os 17 consulados que receberam recomendação de fechamento, mais de uma dúzia estão sediados na Europa, alguns dos quais já foram noticiados pela Reuters. Os quatro restantes são as missões dos EUA em Busan, na Coreia do Sul, Durban, na África do Sul, Medan, na Indonésia, e Douala, em Camarões.
O memorando também analisa maneiras de consolidar grandes missões, como as do Japão e do Canadá, redimensionando vários consulados no país para reduzir a área ocupada.
As recomendações pedem a redução do tamanho dos postos norte-americanos em Mogadíscio, Somália e Iraque, que o memorando descreve como “de longe a missão diplomática mais cara” que Washington opera.
(Reportagem de Jonathan Landay e Humeyra Pamuk; reportagem adicional de Patricia Zengerle)