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Crise do setor de energias renováveis do Brasil se agrava com demissões em grandes geradoras

Brasil

Por Leticia Fucuchima

SÃO PAULO, 31 Mar (Reuters) – Grandes geradoras de energia renovável estão enxugando operações no Brasil e realizando demissões em meio à piora das condições no setor com os cortes de geração impostos às usinas eólicas e solares, um problema sem solução concreta à vista e que está inviabilizando financeiramente tanto negócios atuais quanto novos investimentos, disseram empresas à Reuters.

Entre as companhias que decidiram fazer ajustes no mercado brasileiro de energia, estão a Atlas Renewable Energy, controlada pelo Global Infrastructure Partners (GIP), da BlackRock; a Newave Energia, plataforma que tem a Gerdau como acionista; e a francesa Voltalia.

As empresas não revelam números exatos de demissões, mas admitem que estão redimensionando suas operações com foco na sustentabilidade dos negócios.

Isso marca um agravamento da crise enfrentada no Brasil pelos setores eólico e solar, que se tornaram pilares da matriz elétrica nos últimos anos, ajudando o país a consumir mais energia limpa e se proteger de problemas no fornecimento quando a oferta de combustíveis fósseis usados na geração de energia é afetada por choques externos, como a atual guerra no Irã.

Usinas renováveis passaram a sofrer cortes relevantes de produção desde meados de 2023, levando a pesados prejuízos financeiros às elétricas.

Essas restrições, que em casos extremos podem resultar no desligamento total das usinas em determinados momentos, são impostas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) principalmente para preservar o equilíbrio da rede, quando há sobreoferta de energia ou gargalos na transmissão.

Nas usinas da Atlas, as perdas de receita devido aos cortes são da ordem de 25%, nível muito superior ao que poderia se prever no passado, quando os projetos foram construídos, afirmou Manoel de Andrade, vice-presidente de Assuntos Regulatórios e Desenvolvimento.

“É devastador… Você se prepara para fornecer um volume de energia, todo o seu plano de negócio está estruturado em cima desse volume, e você não consegue entregar. E pior, ainda tem que buscar uma forma de atender seus clientes”.

Segundo ele, em outros países onde as usinas do grupo também sofrem limitações, como o Chile, a empresa consegue mitigar o problema ou com armazenamento de energia, ou com uma dinâmica de mercado diferente que permite a compra de energia adicional para honrar contratos a preços baixos ou próximos de zero.

O executivo afirmou que a Atlas está “se reorganizando para sobreviver em um cenário bastante instável”, e que os esforços impactam todos os setores da companhia no Brasil.

Já na Newave, fruto de uma sociedade entre a Gerdau e a Newave Capital, gestora com participação da XP, disse que também está realizando “ajustes pontuais em sua operação, com foco na eficiência, sustentabilidade do negócio e otimização de recursos”.

“Esses movimentos são conduzidos de maneira criteriosa e fazem parte da dinâmica natural de empresas inseridas em um ambiente em constante transformação”, declarou, à Reuters.

A Newave inaugurou neste mês o segundo grande empreendimento de seu portfólio, um complexo solar em Goiás que recebeu R$1,3 bilhão em investimentos. A empresa ressaltou que seus ativos ficam no submercado Sudeste, que historicamente registra menor incidência de cortes de geração, o que contribui para maior estabilidade operacional de seus projetos.

Já a Voltalia anunciou no início do mês que planeja reduzir sua força de trabalho em cerca de 10% nos países em que atua, incluindo no Brasil, como parte de um plano mais amplo de transformação global.

A geradora francesa disse à Reuters que o Brasil se mantém como um mercado estratégico, hoje concentrando 46% da capacidade de geração em operação e em construção pelo grupo.

Mas apontou que “novos investimentos dependerão de maior previsibilidade regulatória e de condições que assegurem retornos adequados no longo prazo.”

MULTINACIONAIS SEM INVESTIR

As demissões vêm na esteira de uma piora do cenário para o setor brasileiro de renováveis, que foi progressivamente perdendo investidores nos últimos anos. A Acciona deixou de investir no segmento no Brasil em 2024, enquanto fabricantes da cadeia eólica, como a GE, fecharam fábricas no país diante da falta de encomendas.

Com cerca de 3 GW de usinas solares no Brasil, entre projetos operacionais e em construção, a Atlas não vê condições para estruturar financeiramente novos empreendimentos no momento, diante da “incerteza muito grande” e do nível de cortes de geração “fora da razoabilidade”, disse vice-presidente.

A empresa se soma a outras grandes elétricas, como a francesa Engie, que já anunciaram publicamente que não pretendem investir em novos empreendimentos solares e eólicos no Brasil enquanto não houver uma solução para os cortes de geração.

O principal problema, na visão das empresas, é a falta de clareza sobre um potencial ressarcimento. Uma lei aprovada no ano passado determinou o reembolso de parte do passivo, mas apenas retroativo e ainda a ser regulamentado.

Procurado, o Ministério de Minas e Energia disse que algumas soluções estruturais já estão em implantação, como ampliações na infraestrutura de transmissão de energia, enquanto outras estão em estudo, como leilões para inserção de baterias no sistema elétrico e modernização de tarifas de energia cobradas dos consumidores.

Sobre o ressarcimento retroativo, a pasta disse que o termo de compromisso a ser assinado pelos geradores com o governo está “em fase final de elaboração”.

A associação ABEEólica calcula que o prejuízo acumulado para as empresas devido a restrições às usinas soma quase R$8 bilhões, mas reconhece que nem todo esse valor vai ser ressarcido.

“Enquanto era risco, a gente conseguia trabalhar. O que aconteceu é que esse risco virou uma incerteza absoluta… Os geradores receberam a conta e agora estão pagando, tendo que tomar decisões”, disse Francisco Silva, diretor regulatório da entidade.

(Por Letícia Fucuchima; edição de Marta Nogueira)

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